Escrito por Sardella Consultoria em Artigos Diversos
Terça-feira, aquele dia tão esperado… meu autor preferido na área de psiquiatria social iria ministrar um semestre inteiro de aulas para os residentes de psiquiatria. Estava no meu primeiro ano, e me preparei exaustivamente lendo os seus primeiros escritos na tentativa de entender sua linha de raciocÃnio. Iniciou falando de temas da atualidade e que de certa forma iam para outro lado daquilo que eu havia estudado. Incomodado, na primeira ocasião que tive, questionei o que ele falava com o que estava escrito em seus primeiros trabalhos. Lembro-me perfeitamente de sua voz calma e educada ao me responder:
“Meu caro jovem… estes são escritos de 15 anos atrás e foram muito importantes para o inÃcio do meu modo de pensar, porém adquiri ao longo destes anos, muitas outras informações que me fizeram redimensionar alguns destes dogmas e assumir outras variantes de pensamento. Possivelmente daqui a quinze anos pensarei de forma mais abrangente do que penso hoje e algumas questões que me pareciam verdadeiras vão adquirir outras verdades. E sinceramente espero por isso… não quero ser o detentor da verdade absoluta, pois ela não existe… existem verdades (no plural) e vários ângulos interessantes de ver um mesmo assunto. Começamos aqui nossa primeira lição: ouçam o que eu falo apenas como uma maneira de ver as coisas, segundo a minha ótica. Existem várias e com certeza, a maneira de ver de cada um de vocês residentes dará uma nova forma a minha verdade, acrescentando a vivência particular e a pluralidade, caracterÃsticas básicas do ser humano”.
Desde então venho tentando exercer este ensinamento e prestando atenção em meus professores. Sim… e por que não?
A condição eterna de ser estudante me deixa muito feliz.
Quando entro em uma livraria, o cheiro de letras recém reunidas ou de velhas uniões me deixa rejuvenescido. Aquele professor que me ensina a pensar é o meu preferido!
Se verifico em meus paciente a possibilidade de mudança de alguns comportamentos ditos “verdadeiros”, verifico a possibilidade de equilÃbrio.
Tenho comigo que o bom terapeuta na maioria das vezes é aquele que não atrapalha um processo saudável de mudança. É como um companheiro de caminhada que amplia as possibilidades de trajeto. Não sendo necessariamente um amigo, mas alguém em quem possa obter uma análise diversificada daquilo que se deseja obter.
Preocupo-me com os detentores da verdade: escrita ou simplesmente reproduzida sem nenhuma noção de contemporaneidade. Às vezes replicamos coisas sem ter nenhuma noção daquilo que dizemos. Falamos porque ouvimos falar, achamos porque outros acham… sentimos preguiça de exercer nosso poder de elaboração e escolha. Preguiça nesta área é um passo para ser manipulado.
“Ah… desculpe-me eu não sabia.” Frase muito usada denotando falta de pensar sobre os diversos ângulos do caso em questão ou de pensar segundo padrões antigos sem atualização de dados. Pessoas erguem bandeiras baseando-se em pensamentos de milhares de anos atrás, não levando em consideração a evolução da ciência ou da capacidade de mutação do ser humano. Séculos de história que são de suma importância para o entendimento são soterrados numa interpretação rasa dos fatos, totalmente parcial quanto a uma hipótese já previamente elaborada. Temos que ter convicções, mas temos também que estar abertos a mudanças.
Não queira ser um humano pronto, finalizado.
Que chato não ter nada a aprender por já saber tudo!
Ser sempre um estudante na sala de aula da vida tendo na lancheira: pão com recheio de doce de abóbora para o horário de recreio. Bom ano letivo!
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