Escrito por Sardella Consultoria em Tabagismo
Quase 8% dos gastos do sistema vão para doenças ligadas ao cigarro.
O cigarro provoca um prejuízo anual para o sistema público de saúde de pelo menos R$ 338 milhões, o equivalente a 7,7% do custo de todas as internações e quimioterapias no País. O cálculo, feito pela primeira vez no Brasil, considerou o gasto com hospitalizações e terapias quimioterápicas em pacientes de 35 anos ou mais, vítimas de 32 doenças comprovadamente associadas ao tabagismo no ano de 2005. Estima-se que 22,4% da população brasileira fume.
“São recursos significativos e, o mais importante, que poderiam ser poupados”, observa a autora do trabalho, a economista da Fundação Oswaldo Cruz, Márcia Pinto. Para ela, o resultado da pesquisa deixa clara a necessidade de se adotar medidas rápidas para responsabilizar a indústria do tabaco pelo impacto econômico provocado no sistema de saúde público. “Além disso, as ações antitabagistas devem ser intensificadas”, avalia. Entre elas, Márcia enumera o aumento do preço do cigarro brasileiro, o sexto mais barato do mundo.
A pesquisadora não tem dúvida de que o impacto econômico do tabagismo no sistema de saúde é maior do que revela seu estudo. O trabalho analisou apenas parte dos custos: internação e quimioterapia. “Esse foi o ponto de partida, porque não havia nada similar no Brasil.” Ela espera que novos trabalhos agora sejam realizados para avaliar, por exemplo, gastos com medicamentos, cirurgias e o tratamento de pacientes vítimas de fumo passivo.
ÍNDICE DE DOENÇAS
Para fazer o estudo, tema de sua tese de doutorado na Escola Nacional de Saúde Pública, Márcia desenvolveu um índice capaz de calcular o quanto uma doença pode ser atribuída ao tabagismo no Brasil. Ela destacou um grupo de 32 doenças (alguns tipos de câncer, problemas respiratórios e circulatórios) diretamente associadas ao tabaco e avaliou os custos com internação e tratamentos quimioterápicos pelo SUS.
Numa outra etapa, estudou a trajetória de fumantes internados em dois centros de referência para tratamento de câncer e problemas cardíacos: o Instituto Nacional de Câncer (Inca) e o Instituto Nacional de Cardiologia (INC). Nesse estágio, ela calculou os custos do tratamento completo, do diagnóstico à alta ou morte do paciente.
O estudo revelou, por exemplo, que a terapia de um paciente com câncer custa, em média, R$ 29 mil. O tratamento de câncer do esôfago, R$ 33,2 mil, e o de laringe, R$ 37,5 mil. Se todos os casos novos desses três tipos de câncer causados pelo cigarro procurarem o sistema público, o gasto calculado é de R$ 1,12 bilhão.
PACIENTES CARDÍACOS
A mesma análise foi feita com pacientes cardíacos. Nas duas instituições, Márcia destacou apenas problemas que comprovadamente eram provocados pelo cigarro. No caso do INC, os dois grupos principais foram de isquemia crônica do coração – que custa, em média, R$ 29,7 mil – e com angina – cujo tratamento médio é de R$ 33,1 mil.
“Todos os pacientes eram fumantes pesados, uma média diária alta de cigarros, durante vários anos”, observa Márcia. Ela lembra que boa parte dos pacientes chegava ao serviços já em estado avançado da doença. “Muitas vezes, as medidas adotadas eram apenas paliativas, não havia esperança de cura para o paciente”, completou. “É um gasto necessário, mas sem retorno.”
4 anos sem cigarro geram investimento de R$ 9 mil Depois de um final de semana em que fumou seis maços de cigarro, o bancário Mário Raia decidiu que nunca mais daria uma só tragada. E lá se vão quatro anos longe do vício. Nesse período, não apenas se livrou do cigarro e melhorou a saúde, como reverteu tudo o que gastava para sustentar o vício em benefício próprio. Cálculo feito, decidiu investir os R$ 190 que despendia com 40 maços de cigarro da marca Charm por mês em um fundo de investimentos. Hoje, essa aplicação soma cerca de R$ 9 mil, dinheiro que seria gasto às custas de sua saúde. “Essa era uma quantia que eu investia todos os meses em pacotes de cigarros e agora vai me dar uma viagem de ida e volta para a Europa.”
VÍCIO
O bancário provavelmente deixará de entrar na conta dos custos gerados para o tratamento de doenças relacionadas ao tabaco. A decisão de parar de fumar não foi tão sofrida para ele, mas, para a maioria das pessoas, não é tão simples. Pesquisa feita em 15 países com 3.760 fumantes mostra que para 70% deles lagar o cigarro é uma tarefa quase impossível. Outros 56% dizem que deixar o tabagismo é a missão mais difícil que já enfrentaram na vida.
A cardiologista Jaqueline Issa, do Instituto do Coração (Incor), conhece de perto esse tipo de dependência, classificada como doença pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Desde 1996, a médica coordena o Ambulatório de Tratamento do Tabagismo no hospital. Por ali passam pacientes com pelo menos dois diagnósticos. “São pessoas com problemas cardíacos e renais que precisam parar de fumar.”
Ela revela um dado alarmante sobre os pacientes que passam pelo Incor: “90% dos homens que enfartam na faixa dos 40 anos são fumantes. Entre as mulheres, esse índice sobe para 95%.”
Preço baixo do maço ameaça combate ao tabagismo
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Custo caiu 20% para combater o contrabando de cigarros, mas o consumo aumentou
A política de preços do cigarro no Brasil transformou-se em uma ameaça à política antitabagista, afirma o economista Roberto Iglesias, professor da PUC do Rio de Janeiro. Ao longo dos últimos anos, o preço caiu e o poder aquisitivo, cresceu. “Uma combinação explosiva com resultados óbvios: aumento do consumo”, diz.
Estudo feito por Iglesias para a Aliança do Controle de Tabagismo mostra que o preço do cigarro brasileiro caiu 20% entre 1993 e julho de 2007. Essa queda foi reflexo da redução do imposto cobrado por cigarros, a partir de 1999. “Numa época de ajuste fiscal, o imposto caiu”, observa. Na época, o governo explicou que a mudança tinha como objetivo reduzir o contrabando. “Números mostram, no entanto, que essa estratégia foi totalmente incorreta.”
Iglesias fez uma comparação do preço do cigarro e o tamanho do contrabando. “O preço do cigarro caiu de forma drástica, mas trouxe um resultado muito pouco significativo para a redução do contrabando”, avalia. Hoje, maços contrabandeados respondem por 26% do mercado total. O mercado legal no Brasil comercializa 114 bilhões de unidades ao ano.
Para ele, a experiência dos últimos anos mostra que a justificativa hoje usada pela equipe do governo para limitar o aumento do preço do cigarro está equivocada. “O contrabando está vinculado com fiscalização. A redução de preços apenas ajudou a aumentar o consumo.” Ele lembra que o contrabando de cigarros no Brasil cresceu de forma explosiva nos anos 90, pouco depois de a indústria de cigarros no País exportar para o Paraguai cerca de 30 bilhões de maços por ano – quase 10 vezes o consumo daquele país.
Como na época não eram cobrados impostos, o preço do cigarro chegava ao Paraguai muito baixo. E, pouco depois, retornava ao Brasil, com preços maiores, mas ainda assim, significativamente mais vantajosos do que os vendidos no mercado formal. Isso perdurou por seis anos. Até que, em 1998, o governo criou um imposto de 150% sobre a importação.
Para conter o descontentamento da indústria, logo em seguida houve uma redução do imposto cobrado pelo cigarro. “Empresas que pagavam aproximadamente 42% passaram a desembolsar entre 25% e 20% do preço final do maço.” Apolítica de preços de cigarros no Brasil beira o ridículo, afirma a consultora da Organização Mundial de Saúde (OMS), Vera da Costa e Silva. A especialista, que já esteve à frente do programa para combate ao tabaco da OMS, avalia que o País precisa retomar o dinamismo que o tornou mundialmente conhecido nesta área no passado. “Está na hora de o Brasil dar uma guinada nesse processo, aprovar rapidamente a lei que proíbe fumódromos, garantir à Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) mecanismos para fiscalizar e punir quem descumprir a lei. E, principalmente, aumentar o preço dos cigarros no País”, afirma.
Estado de São Paulo
17-MAR-08
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